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Formação

A graça de Deus em “O poder e a glória”

8 min de leitura
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No romance de Graham Greene, um sacerdote marcado pelo pecado e pela fraqueza humana torna-se testemunha de uma verdade desconcertante: a graça divina pode agir mesmo nas almas mais miseráveis, sem jamais deixar de combater o pecado.

Juan Manuel de Prada
Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere

Este texto, do escritor e crítico literário Juan Manuel de Prada, foi traduzido de sua obra Una biblioteca en el oasis.

Entre janeiro e maio de 1938, o escritor inglês Graham Greene (1904-1991) viajou ao estado de Tabasco, no México, com o objetivo de escrever uma reportagem sobre a perseguição sofrida pelos católicos durante o governo de Tomás Garrido Canabal, um dos mais cruéis repressores da resistência cristera. Publicado em 1939 sob o título The Lawless Roads, o relato registra as experiências de Greene naquele contexto de violência religiosa, que ele próprio descreveu como a “mais feroz perseguição religiosa já perpetrada desde os tempos elisabetanos”.

O que testemunhou no México provocou-lhe uma profunda aversão ao regime político local, além de uma angústia que contribuiria para o seu caminho de conversão definitiva ao catolicismo. Embora frequentemente retratado como uma espécie de “católico agnóstico”, Greene estava longe de ser um apologista nos moldes de alguns escritores católicos de gerações anteriores. Ainda assim, não há dúvida de que a coragem dos camponeses mexicanos, dispostos a preservar a fé apesar das ameaças e represálias do poder civil, deixou uma marca profunda no escritor e contribuiu decisivamente para sua conversão.

A graça de Deus em “O poder e a glória”

Um sacerdote pecador em meio à perseguição

O protagonista de O poder e a glória, inspirado, ao que parece, na figura de um sacerdote fugitivo que viveu escondido nas montanhas durante anos, refugiando-se nas aldeias apenas à noite, está longe de ser um padre exemplar. Violou o celibato, entregou-se à bebida e a outros vícios e, muitas vezes, celebrou a Missa em estado de pecado. No entanto, quando a perseguição aos católicos se intensifica, ele não renega a fé nem abandona o ministério sacerdotal.

Sem compreender inteiramente as razões de sua própria perseverança, continua a exercer o sacerdócio, embora condenado a uma existência miserável, árdua e solitária, constantemente ameaçada pelo medo da morte.

Em diversas passagens, Greene contrapõe a existência heroica dos santos mártires à vida penosa e aparentemente insignificante de seu protagonista. Ao final da leitura, compreendemos, junto com o próprio sacerdote, que a fraqueza humana não impede a ação redentora de Deus.

Greene escreve:

Tão limitado é o homem que nem ao menos tem habilidade para inventar um novo vício: a mesma coisa sabem os animais. E era por um mundo assim que Cristo havia morrido; quanto mais maldade se vê tanto maior é a glória que circunda essa morte. É muito fácil morrer pelo que é bom ou belo, pela pátria, pelos filhos ou pela civilização… só mesmo um Deus poderia morrer pelos covardes e os corruptos [i].

Graham Greene, em 1982.

A graça divina em meio à miséria humana

De fato, Cristo escolheu amar a humanidade mesmo em sua indignidade. Não para que nos acomodássemos ao pecado ou encontrássemos nele qualquer motivo de satisfação, mas para que, reconhecendo nossa miséria, lutássemos diariamente por nossa conversão, procurando conformar nossa vida àquele que entregou a própria vida por nós.

Eis um dos grandes ensinamentos do romance de Greene.

Nesse sentido, são particularmente esclarecedoras as últimas reflexões do protagonista, poucos minutos antes de ser fuzilado:

“Ó Deus, arrependo-me e peço perdão de todos os meus pecados… crucificado… merecedor dos vossos terríveis castigos.” Sentia-se confuso, com o espírito distraído: não era aquela a boa morte que a gente costumava implorar. Viu a sua própria sombra na parede da cela; tinha um ar de surpresa e grotesca insignificância. “Que tolo tinha sido em pensar que era bastante forte para ficar, quando os outros fugiram. Que sujeito impossível sou eu, pensou, e que inútil! Não fiz coisa alguma por ninguém. Era o mesmo que se não tivesse nascido.” Os pais estavam mortos… ele próprio, em breve, nem uma recordação seria… afinal de contas, talvez até nem do Inferno fosse digno… As lágrimas corriam-lhe pela face; naquele momento não tinha medo da condenação eterna — até o medo do sofrimento físico passara para segundo plano. Sentia apenas um imenso desapontamento, por ter de comparecer perante Deus de mãos vazias, sem ter feito absolutamente coisa alguma. Parecia-lhe, naquele momento, que teria sido muito fácil ser um santo. Teria bastado um pouco de domínio próprio e um pouco de coragem. Sentia-se como alguém que tivesse perdido a felicidade, por questão de segundos, num lugar combinado. Sabia agora que, no fim, apenas uma coisa contava: ser santo [ii].

Mas será que aquele sacerdote não foi santo? Será que suas mãos estavam realmente vazias?

É justamente dessa questão delicada e comovente que trata O poder e a glória. Às vezes, podemos participar da obra da graça sem sequer perceber a extensão de seus efeitos. A graça divina age em nossa natureza fraca, mesmo quando resistimos à sua ação, chamando-nos continuamente à conversão.

Talvez, sem o saber, aquele homem medroso e beberrão, que atravessa o romance como uma sombra fugidia, tenha se tornado para os camponeses que o acolhem um sinal de salvação. Cada vez que consagra o pão e o vinho em Missas clandestinas, celebradas nas circunstâncias mais improváveis, suas mãos pecadoras servem à renovação sacramental do sacrifício de Cristo, que continua a oferecer aos homens pecadores a possibilidade da santidade.

A força sobrenatural que transforma a fraqueza

Greene apresenta esse paradoxo teológico de maneira inquietante. À primeira vista, o protagonista parece um renegado, mas nunca abandona o ministério sacerdotal. Parece um covarde, mas termina seus dias demonstrando uma coragem extraordinária. Parece um egoísta miserável, mas arrisca a própria vida, já marcada pela degradação, para que os camponeses possam receber os sacramentos.

É, talvez, o sacerdote mais indigno que se possa imaginar e, ao mesmo tempo, o único que resta naquela região, onde os demais foram martirizados ou obrigados a abandonar o ministério. Por isso, torna-se o objeto da obsessão de um tenente fanático que o persegue, desejando executá-lo ou, melhor ainda, forçá-lo a se casar, como já fizera com outros sacerdotes. Assim, pretende demonstrar publicamente que sua fé é fraca e seu sacerdócio, uma fraude.

A lógica do perseguidor é implacável: “se ele realmente acreditasse no Céu e no Inferno, não se importaria com um pouco de dor em troca da eternidade”.

Incapaz de capturar o sacerdote, o tenente recorre a uma retaliação monstruosa. Em cada aldeia por onde passa, escolhe aleatoriamente alguns reféns e os executa. Os camponeses, porém, em vez de denunciarem o padre, permanecem fiéis, mesmo diante da ameaça de morte, sustentados pela esperança da vida eterna.

Finalmente, o sacerdote é capturado graças à traição de um mestiço, uma espécie de Judas redivivo. Nesse momento, o tenente descobre, estupefato, que aquele homem indigno, alcoólatra e transgressor do celibato, apesar de tremer diante da morte, está disposto a enfrentá-la. Uma força sobrenatural o sustenta.

Poderíamos imaginar que o romance termina com a morte do protagonista. Contudo, no último capítulo, quando tudo parece indicar que todos os sacerdotes foram assassinados, surge outro padre fugitivo, disposto a levar os sacramentos às aldeias mais remotas.

A Igreja não desaparece com a morte de um sacerdote. A perseguição pode eliminar homens, destruir comunidades e espalhar o medo, mas não pode extinguir a ação de Deus na história. Como o próprio protagonista havia dito ao tenente, os milagres acontecem “talvez porque Deus anda pela terra”.

Registro histórico do martírio do Beato Miguel Agostinho Pro, sacerdote jesuíta executado durante a perseguição religiosa no México.

A glória de Deus manifestada na fraqueza humana

O poder e a glória é um romance comovente, que mergulha sem hesitação no labirinto das paixões mais ignóbeis e as revela em toda a sua triste realidade. Não o faz, porém, para se deleitar na miséria humana, mas para mostrar que, acima dela, atua a graça divina, capaz de transformar o homem sem deixar de combater o pecado.

Não se trata de uma obra desesperançada, como afirmaram alguns católicos desorientados, a quem Evelyn Waugh repreendeu duramente em defesa de Greene. Pelo contrário, o romance explora os paradoxos da graça divina, presente também em nossa fraqueza, apesar dela e em luta contra tudo aquilo que nos afasta de Deus.

A vitória dessa graça torna ainda mais admirável a glória daquele que morreu para que nós, pecadores e fracos, também tivéssemos a oportunidade de alcançar a santidade.

Referências

[i] Graham Greene, O poder e a glória. Tradução de Mário Quintana. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020, p. 137.

[ii] Ibid., p. 278s.

Fonte original: PRADA, Juan Manuel de. A graça de Deus em “O poder e a glória”. Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere. Padre Paulo Ricardo, 19 out. 2026. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/blog/a-graca-de-deus-em-o-poder-e-a-gloria. Acesso em: 27 out. 2026.

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